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Atenção às Crianças

 

É comum vermos notícias que relatam o sofrimento de crianças na sua maioria pobres. Dias atrás chocou-nos o fato ocorrido em uma de nossas cidades do Grande ABC. Constatado o entupimento na rede de esgoto chamaram-se técnicos para regularizar a situação. Qual não foi o espanto ao constatarem que a causa do entupimento era o corpinho de um bebezinho morto. A notícia relata que o homem que achou, chorou.

Inúmeros são os casos de crianças abortadas cujos corpos servem para produzir sabonete, como denunciou o falecido Heitor Cony em uma de suas crônicas. Crianças exploradas sexualmente, alavancando o turismo em certas regiões do Brasil. Abusadas por pedófilos de todas as classes sociais, religiosos de várias denominações inclusive. Submetidas a trabalho estafante para sobreviverem, torturadas em casas de família, colocadas em prisões com adultos ou assassinadas pelos pais. São notícias que relatam o calvário das crianças. Vale observar que o infanticídio é comum em muitas culturas. Certas tribos indígenas, no Brasil, cuja cultura apresenta aspectos admiráveis não hesitavam em matar crianças nascidas com defeitos físicos.

A criança, que é solução de continuidade da vida, tornou-se um problema em muitos lugares. O que fazer com uma criança? Alternam-se em relação a elas momentos em que são festejadas, bajuladas, fotografadas, com momentos de relacionamento nervoso, agressivo ou indiferente. É evidente que neste relacionamento se mostram os desequilíbrios dos adultos. O que fazer com adultos que não cresceram?

A comoção com os casos de crianças maltratadas indica que nos últimos tempos, tem aumentado a sensibilidade da opinião pública com o drama das crianças. São inúmeras as iniciativas da sociedade para melhorar a vida delas. A CNBB numa Campanha da Fraternidade apresentou a criança como esperança para o futuro e hoje volta a refletir sobre o cuidado com a vida onde ela é mais frágil. A Pastoral da Criança, reconhecida pela sua eficiência, representa iniciativa exitosa da Igreja Católica que salva inúmeras vidas por este Brasil afora, atuante também em nossa Igreja aqui no Grande ABC.

A sabedoria do judaísmo e do cristianismo coloca na gestação de uma criança três sócios: pai, mãe e Deus. Os pais como sócios ativos, Deus como a silenciosa fonte da vida. Dão a sacralidade de uma criança. A limitação da vida humana é compensada com o consolo da descendência. A criança constitui a surpresa do dom da vida. Ela é fraca, impotente, por isso necessita do auxílio dos que a cercam. Deve ser acolhida, amada e educada com cuidado. A criança precisa ter infância, coisa hoje um tanto rara.

Como ideal de amor pelos pobres e fracos, os Evangelhos apresentam preferência marcante pelas crianças por parte de Jesus. Ele valorizava as crianças numa cultura que as desprezava (Mt 18, 2-3). Traziam crianças e Ele as abençoava (Lc,18,15). Coloca-se no lugar das crianças: Quem receber uma criança em meu nome está recebendo a mim. E dizia: Deixai vir a mim os pequeninos (Mc 10,14).

Porém nenhuma advertência no Evangelho é mais terrível que esta: Seria melhor para aquele que escandalizar um destes pequeninos, que lhe amarrassem uma pedra de moinho no pescoço e o jogassem no mar (Lc 17,2; Mt 18,6). Os pequeninos aqui são as crianças, embora se possam entender também as crianças na fé.

Precisamos abrir espaço para que o protagonismo das crianças seja visibilizado e valorizado na sociedade. Respeito, carinho e amor, tudo o que a criança requer para que precise de menos correção e mais instrução.

 

Dom Pedro Carlos Cipollini

Bispo Diocesano de Santo André

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